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14,4 milhões de brasileiros com deficiência: números mostram o que a lei ainda não resolveu

O Brasil tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência. São 7,3% da população, dados do Censo 2022 do IBGE. Um número grande o suficiente para que qualquer política pública séria de inclusão já devesse ter deixado marcas visíveis no mercado de trabalho, nos salários e nas oportunidades disponíveis.

Os dados mostram que essas marcas ainda são rasas.

O que os números revelam

O nível de ocupação das pessoas com deficiência é de 29%. O das pessoas sem deficiência é de 55,8%. Quase o dobro.

O rendimento médio do trabalho de pessoas com deficiência em 2022 foi de R$ 2.053. O de pessoas sem deficiência, R$ 2.890. Uma diferença de 29%, que não é explicada por qualificação ou esforço, mas por um mercado que ainda não aprendeu a receber quem é diferente.

Esses números não são surpresa para quem vive essa realidade. Mas precisam ser ditos com clareza porque existe uma tendência confortável de tratar inclusão como pauta em progresso, como se o caminho percorrido justificasse a distância que ainda falta.

Não justifica.

A lei de cotas existe há mais de 30 anos — e ainda não foi cumprida

A Lei de Cotas, Lei 8.213/1991, obriga empresas com 100 ou mais empregados a reservar de 2% a 5% dos cargos para pessoas com deficiência. Ela existe desde 1991. Trinta e quatro anos depois, apenas 54% das vagas reservadas estavam efetivamente preenchidas em 2025, num universo de aproximadamente 964,7 mil postos em todo o país.

Mais da metade das vagas que a lei obriga a existir continua vazia.

E não é por falta de profissionais. O Censo 2022 registrou 14,4 milhões de PcDs no Brasil, das quais apenas 29% estavam empregadas. Dados do Ministério do Desenvolvimento Social apontam 7,3 milhões de pessoas com deficiência em idade de trabalhar que não recebem benefícios assistenciais, ou seja, estão disponíveis para o mercado e sendo ignoradas por ele.

O senador Paulo Paim, autor do Estatuto da Pessoa com Deficiência, considerado um marco na defesa da inclusão social, foi direto ao ponto durante a sessão especial pelo Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência: a acessibilidade ainda é uma promessa distante. Trinta anos de lei não foram suficientes para que o país chegasse onde deveria ter chegado.

Confira: Lei Brasileira de Inclusão: 11 anos depois, o que mudou de verdade, e o que ainda não saiu do papel

Quando a vaga existe, ela quase sempre é no andar de baixo

Mas há um problema que vai além do número de vagas preenchidas. É sobre quais vagas estão sendo oferecidas.

Um levantamento do Infojobs com vagas destinadas a PcD publicadas entre janeiro e julho de 2026 mostra que 89,1% das oportunidades estão concentradas nos níveis operacional, auxiliar e assistente. Cargos de analista representam apenas 5,4% das vagas. Especialista, 1,3%. Coordenadores, supervisores, consultores, em volumes ainda menores.

O padrão é claro: quanto mais alto o cargo, menos espaço para pessoas com deficiência.

Isso não é coincidência. É o resultado de uma cultura organizacional que ainda associa deficiência à limitação, e que usa a cota como piso de obrigação mínima, não como ponto de partida para inclusão real. Contratar uma pessoa com deficiência para uma função operacional e nunca considerá-la para uma posição de liderança não é inclusão. É ocupação de percentual.

O que esses dados dizem sobre onde estamos

A inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho brasileiro tem três problemas sobrepostos que precisam ser nomeados separadamente para serem enfrentados.

O primeiro é quantitativo: menos da metade das vagas obrigatórias está preenchida. O segundo é qualitativo: as vagas que existem estão concentradas nos níveis mais baixos da hierarquia. O terceiro é salarial: mesmo empregadas, pessoas com deficiência recebem 29% menos do que pessoas sem deficiência.

Três problemas. Uma lei que existe há três décadas. E números que não melhoram na velocidade que deveriam.

Confira também: O que acontece com a inclusão no dia 21 de setembro?

O que precisaria mudar

Fiscalização com consequências reais, empresas que descumprem a cota precisam ser responsabilizadas de forma que doa, não apenas advertidas. Metas de inclusão que vão além do percentual mínimo obrigatório, incluindo diversidade em cargos de liderança. Investimento em capacitação e desenvolvimento de profissionais com deficiência dentro das organizações, não apenas na porta de entrada. E uma mudança cultural que trate a pessoa com deficiência como profissional inteiro, com potencial de crescimento, não apenas com capacidade de ocupar uma vaga.

A lei de cotas foi um avanço real em 1991. Mas uma lei que existe há 34 anos e ainda está sendo cumprida pela metade não é um avanço suficiente. É um lembrete de quanto ainda falta.

Você já enfrentou alguma barreira no mercado de trabalho por causa da sua deficiência, na contratação, no salário ou nas oportunidades de crescimento? Conta nos comentários. Esses relatos são dados que os números do IBGE não conseguem capturar.

Veja Também: 11 direitos da PcD reconhecidos por lei

Vera Garcia

Paulista, pedagoga e blogueira. Amputada do membro superior direito devido a um acidente na infância.

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