O que mudou quando comecei a escrever
Quando comecei a escrever, eu achei que estava apenas colocando lembranças no papel.
Mas, aos poucos, percebi que era eu quem estava sendo transformada por elas.
No começo, eu escrevia para não esquecer.
Uma cena de infância.
Uma conversa.
Um rosto.
Uma sensação.
Uma lembrança que aparecia depois de tantos anos.
Eu escrevia e seguia o meu dia.
Mas algumas histórias não ficam no papel.
Elas continuam trabalhando dentro da gente.
Quanto mais eu escrevia, mais eu percebia que algumas lembranças que eu carregava há décadas ainda tinham coisas para me dizer.
Passei a olhar para acontecimentos antigos de uma maneira diferente.
Algumas coisas que eu havia entendido de uma forma quando era criança ganharam outro significado quando olhei para elas como adulta.
Também encontrei pessoas que, mesmo estando há muito tempo na minha memória, voltaram a ocupar um lugar diferente na história.
E descobri que escrever não era apenas lembrar.
Era olhar novamente.
Olhar para as dores sem precisar permanecer nelas.
Olhar para as perdas e perceber que elas não contavam a história inteira.
Porque, entre aquilo que aconteceu e aquilo que sou hoje, existe uma vida inteira.
Uma vida feita de encontros, escolhas, erros, afetos, descobertas e reconstruções.
E talvez essa tenha sido a maior mudança.
Eu parei de olhar apenas para o que perdi.
Comecei a perceber tudo o que a vida havia construído a partir do que ficou.
Foi quando entendi que escrever este livro não seria apenas contar uma história do passado.
Seria também entender a mulher que nasceu de tudo aquilo.
E foi assim que Com o Que Ficou começou, de verdade, a existir.

