Doenças e saúde

Fila do SUS, deficiência e omissão: quando o direito à saúde existe só no papel

Você já ficou meses esperando uma consulta que nunca chegou? Já levou uma criança com deficiência para uma unidade de saúde e ouviu que não havia vaga, que o especialista não atendia ali, que precisava voltar outro dia — sem data, sem previsão, sem resposta?

Isso não é exceção. É o sistema funcionando exatamente como tem funcionado.

O que a Constituição garante — e o que a realidade entrega

A saúde é direito fundamental garantido pela Constituição brasileira. O SUS existe para que esse direito seja universal — para que ninguém precise ter plano de saúde para ser atendido com dignidade.

Na prática, o que milhões de brasileiros vivem é diferente. A demora no atendimento, mesmo em casos graves, deixou de ser falha pontual para se tornar estrutural. Não é má sorte. É o resultado de décadas de subfinanciamento, má gestão e escolhas políticas que colocaram outros interesses antes da vida das pessoas.

O frade dominicano Marcos Sassatelli nomeou isso com clareza: o que acontece quando alguém morre esperando atendimento é crime de omissão de socorro. E ninguém é preso por isso. Ninguém é julgado. Ninguém responde.

Para pessoas com deficiência, a fila é mais longa — e o custo é mais alto

Se o SUS já falha com quem não tem deficiência, para quem tem, as barreiras se multiplicam.

Unidades sem acessibilidade física. Profissionais sem preparo para atender pessoas com deficiência auditiva, visual ou intelectual. Laudos especializados que demoram meses para sair — e que às vezes nunca saem. Terapias como fonoaudiologia, fisioterapia, terapia ocupacional e acompanhamento psicológico com filas que podem durar anos.

Famílias de crianças com paralisia cerebral, TEA ou síndrome de Down relatam uma realidade que não deveria existir num país com constituição que garante saúde universal: a maratona interminável por um mínimo de atendimento. Consultas canceladas. Encaminhamentos perdidos. Crianças que precisam de intervenção precoce esperando por algo que, quando chega, já chegou tarde.

E quando é emergência? Uma crise convulsiva, uma complicação respiratória, um ferimento grave — a resposta costuma ser a mesma: espera. Portas fechadas. Uma família desesperada diante de um sistema que deveria protegê-la.

O argumento da falta de recursos — e o que ele esconde

É o que os gestores sempre dizem: faltam recursos, a demanda é alta, a burocracia atrasa. Mas como Sassatelli aponta, isso é uma escolha política, não uma fatalidade. O dinheiro existe. Vem dos impostos que todos pagam. O que determina onde ele vai não é a necessidade — é a prioridade de quem decide.

Enquanto isso, pessoas com deficiência morrem aguardando vaga em UTI. Aguardando medicamento básico. Aguardando um atendimento que a lei já garantiu e que o sistema simplesmente não entrega.

Isso não é ineficiência administrativa. É violência estrutural.

A terceirização que aprofunda o problema

Nos últimos anos, o poder público tem transferido a gestão de hospitais e postos de saúde para Organizações Sociais — empresas privadas que administram serviços públicos sob lógica de mercado.

O problema é que lógica de mercado e saúde pública têm objetivos diferentes. Numa, o que importa é o custo. Na outra, o que deveria importar é a vida.

Pessoas com deficiência demandam atendimentos múltiplos, especializados e de longo prazo. Numa lógica de custo, isso as coloca no fim da fila — ou fora dela. O resultado é o que famílias relatam todos os dias: negligência, descaso, invisibilidade dentro de um sistema que deveria enxergá-las com prioridade.

O que a lei já garante — e que você pode cobrar

Sassatelli lembra algo que pouca gente sabe: se não houver vaga em UTI na rede pública ou conveniada, o poder público é legal e moralmente obrigado a pagar a internação em hospital particular e a adquirir os medicamentos necessários. Isso é lei — não favor, não exceção.

Se você ou alguém da sua família teve um direito negado pelo SUS, existem caminhos formais para cobrar:

Defensoria Pública — oferece assistência jurídica gratuita e pode acionar o Estado judicialmente para garantir atendimento, medicamento ou vaga.

Ministério Público — pode ser acionado para investigar omissões e responsabilizar gestores.

Judicialização da saúde — em casos urgentes, é possível obter liminar judicial obrigando o Estado a fornecer o atendimento imediatamente.

Processar o Estado não é radicalismo. É o exercício de um direito que o próprio Estado reconhece e sistematicamente descumpre.

O que precisa mudar — e quem precisa cobrar

Um SUS verdadeiramente inclusivo não é utopia. É obrigação constitucional. E para que saia do papel, exige coisas concretas: recursos efetivos destinados à saúde da pessoa com deficiência, formação humanizada para profissionais, estrutura física acessível em todas as unidades e responsabilização real de gestores que descumprem a lei.

Exige também que a sociedade civil, associações PcD e cada pessoa afetada por esse sistema continuem denunciando, organizando e cobrando — porque o silêncio legitima o descaso.

Antes de fechar

A vida de uma pessoa com deficiência não vale menos. Essa frase não deveria precisar ser dita. O fato de que ainda precisa diz tudo sobre onde estamos.

O direito à saúde não é privilégio de quem pode pagar. É garantia constitucional — e enquanto não for tratado como tal na prática, continuará sendo letra morta para quem mais precisa que seja real.

Você já enfrentou alguma situação de negativa ou demora no SUS por causa da sua deficiência ou de alguém da sua família? Conta nos comentários. Essas histórias precisam ser ouvidas — e quanto mais forem ditas, mais difícil fica ignorá-las.

Por Vera Garcia

Veja Também:

Vera Garcia

Paulista, pedagoga e blogueira. Amputada do membro superior direito devido a um acidente na infância.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

error: Content is protected !!
Acessar o conteúdo