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Laudo Médico PcD: a falta de padrão pode ser o motivo de tantas negativas?

Nos últimos anos, o laudo médico para pessoa com deficiência (PcD) se tornou um dos maiores obstáculos para quem tenta exercer direitos básicos no Brasil. O Conselho Federal de Medicina (CFM) voltou, nesse mês, a discutir a padronização desse documento, mas, na prática, a vida de quem depende dele continua difícil.

Muitas pessoas com deficiência já passaram pela mesma situação: o médico emite o laudo, você entrega no órgão responsável e, dias depois, recebe a resposta negativa. O motivo quase nunca é explicado de forma clara. Dizem apenas que “o laudo não atende aos critérios”.

Assista o vídeo abaixo:

O problema não é a deficiência. É o laudo.

Hoje, cada órgão pede o laudo de um jeito diferente. Isso gera confusão e injustiça.

Exemplo comum:
Uma pessoa com limitação no braço consegue a isenção de IPI para comprar um carro PcD. Com o mesmo laudo, solicita a isenção de ICMS e recebe uma negativa. Depois, tenta registrar o veículo no Detran e o documento volta a ser recusado.

A deficiência não mudou. O problema é que não existe um padrão claro para o laudo médico PcD.

Autonomia médica não pode virar bagunça

O CFM afirma que não quer criar um modelo fechado de laudo. A ideia é respeitar a autonomia do médico. O problema é que, sem regras mínimas, muitos laudos saem incompletos.

É comum encontrar laudos que:

  • Só trazem o código da doença (CID)

  • Não explicam como a deficiência afeta a vida da pessoa

  • Não deixam claro se a limitação é permanente

  • Não descrevem dificuldades para dirigir, trabalhar ou se locomover

Quando isso acontece, o órgão que analisa o pedido usa essas falhas para negar direitos.

CID não basta. O que importa é a limitação na prática.

Muita gente acredita que basta ter um diagnóstico para ser reconhecida como PcD. Isso não é verdade.

Exemplo simples:
Duas pessoas podem ter o mesmo CID no ombro.
Uma sente dor leve.
A outra não consegue levantar o braço para trocar a marcha do carro.

Se o laudo não explica essa diferença, o órgão pode entender que não existe deficiência suficiente para concessão de direitos.

Por isso, o laudo médico PcD precisa explicar o que a pessoa não consegue fazer, e não apenas o nome da doença.

Médico assistente e médico perito: onde o PcD perde

Outro problema frequente é a separação entre médico assistente e médico perito.

  • O médico que acompanha o tratamento muitas vezes se recusa a fazer o laudo por medo de sanções éticas ou por falta de orientação clara.

  • O médico perito, que nunca viu o paciente antes, avalia tudo em poucos minutos.

Resultado: avaliações rápidas, superficiais e, muitas vezes, injustas.

Quem vive com a deficiência todos os dias sente que não foi ouvido.

Por que tanta gente precisa entrar na Justiça?

Quando o laudo é mal feito ou recusado sem explicação, sobra apenas um caminho: o Judiciário.

Hoje, milhares de pessoas só conseguem:

  • Comprar carro PcD

  • Garantir isenção de impostos

  • Ter acesso a benefícios

  • Fazer valer direitos em concursos

depois de entrar com ação judicial.

Isso não deveria ser normal. É um sinal claro de que o sistema não está funcionando.

Padronizar o laudo é proteger a pessoa com deficiência

Padronizar não significa tirar a liberdade do médico. Significa deixar claro o mínimo que o laudo precisa ter para ser aceito em qualquer órgão.

Um bom laudo médico PcD precisa:

  • Explicar a limitação funcional de forma clara

  • Mostrar como a deficiência afeta a vida diária

  • Informar se a condição é permanente

  • Usar uma linguagem simples e objetiva

Quando isso acontece, diminuem as negativas, o retrabalho e o sofrimento de quem já enfrenta dificuldades diariamente.

Conclusão

Enquanto não houver um padrão claro e respeitado, pessoas com deficiência continuarão sendo prejudicadas não pela sua condição, mas por falhas no papel.

Direitos PcD começam com um laudo médico bem feito. Sem isso, a deficiência vira invisível para o sistema.

Link: https://portal.cfm.org.br/noticias/cfm-discute-padronizacao-de-laudo-medico-para-pessoas-com-deficiencia

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Vera Garcia

Paulista, pedagoga e blogueira. Amputada do membro superior direito devido a um acidente na infância.

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