Uma rachadura quase imperceptível
Hoje eu quero compartilhar com vocês um trecho do meu livro, Com o Que Ficou.
Antes de começar a leitura, quero contar um pouco sobre o que vocês vão ouvir.
Em novembro de 1979, eu tinha onze anos e levava uma vida comum. Escola, irmãos, brincadeiras na rua, vizinhos que colocavam cadeiras nas calçadas ao anoitecer.
Era uma vida simples. Segura. Previsível.
Até que, em um dia de novembro, tudo mudou.
Um beiral caiu sobre mim. Perdi o braço direito. E o mundo que eu conhecia — a rua, os irmãos, a escola onde sonhava um dia ensinar — continuou existindo do lado de fora do hospital. Dentro, havia uma Vera com um braço a menos e uma vida inteira a reaprender.
Mas Com o Que Ficou não é uma história sobre aquele dia.
Aquele dia é apenas o começo.
O livro é sobre tudo o que veio depois. As pequenas adaptações que ninguém vê. As pessoas que chegaram. Os caminhos que precisaram ser inventados. E a descoberta de que o que fica depois de uma perda não é resíduo.
É fundação.
O trecho que vou ler agora é o início do terceiro capítulo, o capítulo que narra o dia 14 de novembro de 1979.
Não é o dia do acidente ainda.
É o dia antes de tudo mudar.

