“Achei que nunca mais ia parar de chorar’: jornalista relata esgotamento ao descobrir autismo regressivo da filha”
Segundo informações do site Universa UOL, A jornalista, roteirista e apresentadora Carol Pires é conhecida por sua capacidade de contar histórias potentes — seja em podcasts como Retrato Narrado, no documentário Democracia em Vertigem (indicado ao Oscar), ou em sua antiga newsletter sobre maternidade, FOLGA. Mas agora, sua voz se volta para uma vivência profundamente pessoal: a maternidade atípica.
Mãe da pequena Eva, de 5 anos, diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Carol está escrevendo um livro sobre sua jornada. Ela relata desde o desejo de ser mãe até os desafios e aprendizados da criação de uma filha com necessidades específicas de desenvolvimento.
A difícil chegada do diagnóstico
Carol percebeu os primeiros sinais do autismo de forma clara. Eva havia começado a apresentar marcos do desenvolvimento típicos, como dar tchau, mas passou a regredir. “Ela parou de olhar quando eu chamava, deixou de responder a estímulos”, conta Carol. O diagnóstico viria mais tarde, mas a intuição materna foi o ponto de partida para iniciar terapias precoces.
Eva tem autismo regressivo, condição em que a criança desenvolve algumas habilidades iniciais e, posteriormente, as perde. Esse tipo de TEA pode passar despercebido no início, o que torna ainda mais fundamental o olhar atento da família. “Comecei o tratamento antes mesmo do laudo formal, porque sei que quanto mais cedo, melhor o prognóstico”, explica.
O peso da solidão e o silêncio sobre a saúde mental materna
Ser mãe de uma criança com deficiência intelectual ou neurodivergente é mergulhar em um universo muitas vezes solitário. Carol descreve esse início como “um abismo”. Além do medo, vieram sentimentos de culpa, insegurança e esgotamento extremo. “Você entra em uma espiral de questionamento: será que é castigo? Será que fiz algo errado?”
Ela relata que, na maioria dos atendimentos médicos, todas as perguntas são direcionadas à criança. Até que, em uma consulta, uma médica perguntou: “E como você está?”. A pergunta a desarmou. Ela chorou. Era a primeira vez que alguém olhava para sua dor — não apenas para o diagnóstico da filha.
Cuidar da criança e também de si
Segundo a psicóloga Lygia Durigon, especialista em Análise do Comportamento, é comum que mães atípicas assumam papéis múltiplos: cuidadoras, estimuladoras, protetoras — e tudo isso sem pausa. “Essas mães precisam de uma rede de apoio, de acolhimento psicológico e de grupos com quem compartilhar vivências. Ninguém dá conta sozinha”, afirma.
Carol passou por um episódio de paralisia facial causada por estresse. Estava recém-separada, morando em São Paulo, longe da família. Foi nesse ponto de colapso que decidiu voltar para Brasília, para perto da mãe e da rede de apoio. “Quando a criança entra na terapia, a mãe também deve entrar. É clichê, mas é essencial”, defende.
O modo guerrilha: estar em alerta constante
A maternidade atípica exige vigilância contínua. Eva, hiperativa e sensorial, vive explorando o ambiente. “No início, se eu distraía, ela quebrava todos os ovos no chão. Hoje, ela quebra, mas já coloca na tigela”, conta Carol com humor. O nível de atenção exigido esgota, fisicamente e emocionalmente.
Estudos internacionais já demonstraram que o estresse de mães atípicas pode ser comparado ao de soldados em zonas de guerra. Essa comparação, ainda que chocante, ajuda a dimensionar a urgência de políticas públicas que acolham e ofereçam suporte real a essas famílias.

Imagem: Carolina Pires
Observando o desenvolvimento: o que pais devem notar
A psicóloga Lygia explica que sinais como falta de contato visual, ausência de imitação ou falhas no sorriso social são indicadores importantes. No entanto, cada criança é única. Alguns podem demonstrar mais afeto, outros podem evitar o toque. Por isso, é fundamental que os responsáveis acompanhem os marcos do desenvolvimento, em casa e com o pediatra.
Mesmo antes do diagnóstico, a recomendação é iniciar as terapias de estímulo. Quanto mais cedo a intervenção, maiores as chances de ampliar o repertório de habilidades da criança.
Maternidade atípica: uma travessia cheia de aprendizados
Hoje, Carol e Eva vivem em São Paulo, no mesmo bairro do pai da menina, com quem dividem a guarda. A jornalista conta que aprendeu muito nos últimos três anos. “Teve a primeira vez que a Eva me pediu queijo, e isso foi uma vitória”. Pequenas grandes conquistas ganham significado especial na vida de mães atípicas.
Ao ser perguntada se está bem, Carol responde com um sorriso no rosto:
“Sim, estou super. Faço análise, tenho bons amigos e uma família que me apoia. Tudo isso vai se elaborando, né?”
Reflexão final: um olhar mais amplo para as mães atípicas
Ser mãe já é uma tarefa desafiadora por si só, mas quando se trata de maternar uma criança neurodivergente, os desafios se intensificam — muitas vezes, significa viver em estado de vigilância permanente, sem espaço para o próprio cuidado. Como bem lembra Carol: “A gente esquece que precisa se cuidar para continuar cuidando.”
Histórias como a dela ajudam a romper o silêncio sobre a saúde mental das mães, ampliam a empatia e abrem espaço para redes de apoio. Porque nenhuma mãe deve carregar esse peso sozinha.

