Reflexões de Márcia Gori sobre a 3ª Conferência Nacional de Políticas para Mulheres
Caro leitor,
O texto abaixo foi escrito pela amiga Márcia Gori*.
A 3ª Conferência Nacional de Políticas para Mulheres ocorreu no período de 12 a 15 de dezembro de 2011 em Brasília, com a presença de mais de três mil mulheres governamentais e Sociedade Civil de todos os estados brasileiros fracionados em vários segmentos de raça e etnia, credos religiosos, idosas, com deficiência, etc. Chegaram delegações de vários estados em horários diversos no dia 12, com a surpresa que estaríamos hospedadas em alojamentos com distância de uma hora e meia à duas horas do local do evento, Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Diante disso, começaram as manifestações dos grupos com preocupações em relação à segurança, alimentação e toda a infraestrutura nas localidades de Brasilusa e Luziânia, pois por serem cidades satélites, estas estariam mais vulneráveis.
Ficamos horas sem comer no aguardo da abertura oficial da Conferência, com a confusão estabelecida no local e com várias conversas paralelas trazendo ainda mais insegurança generalizada. Um pouco mais das 20 horas, começou a abertura oficial com presença de várias autoridades, inclusive a presença da Presidenta Dilma Rousseff e seus Ministros e Ministras e todas as delegações estaduais presentes. Nesse instante várias mulheres, mesmo sendo reprimidas, fizeram uma manifestação antes do discurso da Ministra Iriny Lopes, Secretária de Políticas para Mulheres, para que a presidenta tomasse conhecimento dos abusos e omissões.
A Ministra Iriny Lopes vendo-se acuada perante a manifestação, nos informou que a empresa contratada para a finalidade de fazer as reservas dos hotéis e logística desistiu do contrato a dez dias do inicio da CNPM (Conferência Nacional de Políticas para Mulheres), trazendo transtornos para toda a equipe. E mesmo com toda a situação atípica foi mantida a proposta do evento. Diante desta circunstância a Presidenta deu uma ordem expressa que resolvesse toda a situação custe o que custasse.
No primeiro dia fomos jantar após às 22h, sem a observância das prioridades de idosas e mulheres com deficiência e mobilidade reduzida, com situações até de agressões verbais de algumas delegadas com as outras, devido ao cansaço, desgaste emocional, fome e irritação com a coordenação da Conferência. Tínhamos por volta de vinte mulheres com deficiência, cada uma com uma necessidade especifica, sem atendimento adequado e digno, como hospedagem adaptada. Neste primeiro dia algumas de nós fomos dormir após as duas da madrugada em um hotel adaptado, mas com saída no outro dia. Fomos transferidas para um hotel com todo conforto, mas sem adequação nenhuma, a cadeira de rodas não entrava nem na porta do banheiro para fazer a higiene e o básico das necessidades fisiológicas. Acabei tomando banho sentada em uma cadeira de bar com as lixeiras do banheiro e pia servindo de canecas para recolher a água e jogar no corpo. Somente na quarta-feira nos entregaram uma cadeira de rodas para banho, onde amenizou um pouco a condição precária e desumana. Não adiantava reclamar, porque os hotéis não tinham vagas e os que tinham não queriam abrir vagas sem pagamento adiantado, dessa forma ficamos reféns de toda falta de infraestrutura da equipe coordenadora.
Muitas tentaram trocar passagens para fazer o retorno, sem sucesso, sendo obrigadas a se submeterem a muitas situações de stress e falta de preparo para dar continuidade aos trabalhos. Mesmo com tantas adversidades houve os trabalhos e aprovação de temas importantes para o avanço em politicas públicas para a cidadania das mulheres, tais como a legalização do aborto, reconhecimento das mulheres encarceradas e com confronto com a lei, moções importantes, entre outras.
Para o segmento da mulher com deficiência teve alguns entraves em grupos isolados, mas a maioria houve progressos, embora no final o nosso grupo fizesse uma proposta igual de São Paulo e outros estados, que fosse colocado na introdução do Plano Nacional de Políticas para Mulheres a necessidade de se atentar as especificidades de nosso segmento como norteador o Decreto Federal 5.296/04 e a Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência da ONU, como também uma moção de repúdio pela falta de sensibilidade de nossas necessidades com uma dura critica em não trazer para junto da coordenação geral da CNPM um técnico da Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência para que não houvesse tanta omissão em nossas condições.
Para marcar presença fizemos um grupo chamado “MARCHA DAS DEFIS VADIAS”, mas trouxe certa revolta em quatro mulheres com deficiência por entenderem que estávamos desvalorizando-as perante a sociedade. Entretanto a ideia era romper paradigmas e trazer o nosso tema para as rodas de discussões dentro do movimento de mulheres, porque este é um tema muito machista e sexista, com o olhar assistencialista para nós.
Neste exato momento histórico não aceitamos mais esse tipo de situação, porque temos que romper o casulo da submissão e medo que envolve essas mulheres e trazê-las para a discussão, frear todo tipo de violência moral, psicológica, física, entre outras, mostrando para a sociedade que estamos é altamente “capacitista” por ainda querer pregar uma metodologia que somente tem capacidade aquele que tem o corpo perfeito para trabalhar, estudar, passear, fazer sexo quando bem entende por isso esse nome, pois entendemos como uma forma de preconceito e discriminação deste grupo. Para melhor entendimento vou anexar um link http://www.aredacao.com.br/noticia.php?noticias=770 para q todos leiam e entendam o porquê da “MARCHA DAS DEFIS VADIAS”… Espero que em 2015 tenhamos várias mulheres com deficiência para compor a nossa marcha e engrossar as nossas reivindicações para melhor cidadania e inclusão.
* Márcia Gori é bacharel em Direito-UNORP, empresária Assessoria de Direitos Humanos – ADH Orientação e Capacitação LTDA, Ex-presidente do Conselho Estadual para Assuntos da Pessoa com Deficiência – CEAPcD/SP 2007/2009, ex-Conselheira Estadual do CEAPcD/SP 2009/2011, Presidente do Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência de São José do Rio Preto/SP, membro do CAD – Clube Amigos dos Deficientes de São José do Rio Preto/SP. Miss Tattoo 2010, palestrante sobre Sexualidade, Deficiência e Inclusão Social da Pessoa com Deficiência, modelo fotográfico da Agência Kica de CastroFotografia.
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Comentários (7)
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Kica de Castro
Lendo as palavras do Carlos Eduardo, em outro post, tenho que concordar que esta aberta a temporada de caça as pessoas com deficiência. São eventos seguidos, todos após ao dia 03 de dezembro, dia internacional da pessoa com deficiência. Esse é o presente de Natal para as pessoas com deficiência: situações humilhantes, discriminações, de pouco caso e de leis que acabam com acessibilidade, melhor, leis que prolongam a distância do consumidor com deficiência em estabelecidos comerciais. Para cada post, vou fazer o meu comentário, assim fica claramente registrado a minha opinião em cada situação. O sentimento de revolta e geral em todos os casos: Isto É, Playcenter, lei aprovada pelo Kassab… claro esse post da 3ª conferência nacional de políticas para mulheres.
Precisamos unir forças, lutar por mudanças imediatas.
valdir timóteo
Entendi o porquê do nome (Marcha das Vadias) muito interessante, o tal policial acabou fazendo com que as vítimas de estupro se revoltassem com a discriminação pelo modo de se vestirem eeeeee, me desculpem, mas não vou contar quem não entendeu clique no link, Há haaaaaa
Parabéns Márcia Gori você é uma grande guerreira e muito inteligente não tem medo de lutar pelo que acredita ser certo e justo, Sei que você é única, mas, precisamos de milhares de Marcias Goris assim esse país passaria a respeitar as pessoas.
Sou seu Fã
Valdir Timóteo
Kica de Castro
Valdir,
O ditado “de médico e de louco todo mundo tem um pouco” é a mais pura verdade, principalmente quando mencionamos o lado “louco”.
Com tantas humilhações sofridas nesse evento, o que me lembra muito o que passamos (Márcia e eu) em Campos de Jordão e Piauí, chega uma hora que o lado “louco” precisa falar mais alto. A marcha das vadias, têm vários fatores que precisam ver avaliados antes de serem julgados. As quatro mulheres com deficiência que ficaram ofendidas, precisam conhecer a fundo essa marcha e ver que uma palavra tão agressiva, foi usada apenas para chamar atenção para o básico, antes mesmo da questão acessibilidade o respeito com o próximo não pode faltar. Fazer essa manifestação, com esse nome, chamou atenção dos organizadores do evento. Apenas a palavra vadia foi usada, e nenhuma mulher com deficiência que participou desse movimento, ficou com fama de “tal”. Mas faz parte de nosso cotidiano, e da diferenciação do caráter de cada um, pois somos em certo ponto individualistas e egoístas. Não se pode julgar o livro pela capa, primeiro tem que conhecer os fatos para depois argumentar. Também sou fã da Márcia, assim como sou fã do Movimento Inclusão Já.
Rayane Landim
Amada Marcia quero te dar os parabéns pela luta e principalmente parabéns por dar a cara a tapa e mostrar as falhas e desrespeito que sofremos até mesmo nos momentos que era para se discultir melhorias Galera esse é o pais em que vivemos!
Abraços e meu apoio incondicional Marcia
Abraços Rayane Landim
valdir timóteo
Kica obrigado, você mais que ninguém sabe da admiração que tenho por ti, AI LOVE TU rsrs ingreis Du bãoooo especial pra TU rsrs
Falou tudo Kica, não se julga um livro pela capa, alias não podemos julgar ninguém, quem julga é Deus no Céu e o Judiciário na terra quando for o caso.
Para aqueles que não entenderam (As Vadias significa as discriminadas) foi por isso que eu disse clique no link, eu cliquei e entendi o porquê da Marcha das Vadias, o que é muito interessante e nos da uma grande lição de não julgar ninguém por nada, conheçam e depois falem sobre o assunto.
Bjim a Tu a Márcia e a Vera que esta saindo de férias, Maravilha rsrs um dia chego lá
Vera Garcia
Estou de férias, mas continuo trabalhando, agora na manutenção do blog rs.
Beijos, Valdir!
Claudia
Prezados leitores
Acredito que da mesma forma forma que as pessoas são livres para se manifestar de forma consciente, elas também são livres para discordar e para se sentirem ofendidas.A partir do momento em que saímos de nossos estados estamos representando pessoas com deficiência de todo o Brasil. E acredite e bom aparecer na mídia, mas não é bom ser rotulado de vadia, porque somos estudantes trabalhadoras e a marcha das deficientes vadias só aumenta o preconceito sobre nós mesmas, somos chamadas de ceguinhas e não sendo suficiente ainda querem participemos de uma marcha nos rotulando de vadias?Eu aprovo as manifestações contra todo e qualquer tipo de violência contra qualquer ser humano pois os meninos também são vitimas de estupro. Porém não desejo passar na rua e ser chamada de vadia e nem enxergar o cidadão ou cidadã que fez a declaração. Precisamos sim elevar o nosso conceito sobre nós mesmas ( mulheres com deficiência ) e fazer uma marcha que represente a dignidade e o respeito que merecemos diante da sociedade. As pessoas são livres para se exporem e até para serem profissionais do sexo, com carteira assinada, mas que cada um assuma o que é. por exemplo marcha das margaridas, parada gay etc.
Se quiser meu apoio em 2015 na próxima marcha penso em um nome que valorize o nosso segmento.
Marcia você é uma vitoriosa, mas existem aquelas que ainda tentam conquistar o seu espaço , algumas de nós já começamos a ser barradas na rua sem conseguir ver o rosto do agressor a fim de denunciar.
Um abraço companheira