Eu amo, tu amas, eles amam: Sexualidade de jovens e adultos com deficiência intelectual
Caro leitor,
Acompanhe durante as próximas semanas o reflexivo e pertinente artigo “Eu amo, tu amas, eles amam: Sexualidade de jovens e adultos com deficiência intelectual” escrito pela psicóloga e Mestre em Educação Especial Solange Leme Ferreira (2). Em relação ao termo deficiência mental, leia-se deficiência intelectual.
“… em nossos dias qualquer criança tem acesso a informações sobre o sexo pelos meios de comunicação, conversas com colegas ou ouvidas dos adultos que, desta forma, são deturpadas, fragmentadas ou mal interpretadas Infelizmente, ao assim pensarem, os pais/cuidadores não percebem que a maioria das condutas inadequadas de seus filhos com deficiência mental acontece devido à ignorância sobre a sexualidade e ao isolamento em relação aos pares do outro sexo.”
Eu amo, tu amas, eles amam: Sexualidade de jovens e adultos com deficiência intelectual 1
Se mito é uma representação que se faz, exagerada ou simplificada, de fatos ou personagens; se tabu é algo cujo uso é proibido, é um escrúpulo sem fundamento; então, discorrer sobre o presente tema é abordar um grande mito e tabu, que existem tanto no imaginário quanto na prática social cotidiana da sexualidade de pessoas com deficiência mental.
O que será exposto representa uma dimensão do que temos vivenciado em atividades de ensino, pesquisa e extensão universitária (3). Nada se pretende aqui normatizar ou determinar apenas apresentar ideias que possam auxiliar aos pais/cuidadores, educadores e profissionais afins, na construção de um novo modo de pensar, sentir e agir frente às possibilidades e necessidades no âmbito da afetividade-sexualidade das pessoas com deficiência mental, que leve em conta o seu inquestionável direito de construir e manter vínculos de amor e prazer.
Explicitando a questão
Apesar de a sexualidade ser um componente universal da existência humana e sua manifestação ser importante para o seu equilíbrio biopsicossocial, ainda há dificuldade para dela falar ou com ela lidar. Será pelo receio de que, ao assim fazer, também seriam desvelados os nossos valores, comportamentos, interesses e frustrações sexuais? Independente de ser esta a explicação, a sexualidade humana ainda é mantida sob o controle de mitos, tabus e repressões sociais.
Um exemplo disso é a rotina social de jovens e adultos com deficiência mental, caracterizada pela mesmice e reduzida aos familiares e amigos comuns, limitando a vivência de saudáveis relacionamentos que poderiam ser estabelecidos na escola, no trabalho e no lazer, além de dificultar a reivindicação de seus haveres e a manifestação de seus quereres diante da vida e do outro, tornando maior a probabilidade da expressão inadequada de comportamentos sociais e emocionais que, por sua vez, acabam exacerbando a sua deficiência mental. Considerando que tolher a expressão da afetividade- sexualidade das pessoas com deficiência mental é também uma forma de exclusão e discriminação e considerando os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1995), que situam a orientação sexual como tema transversal às diferentes áreas do conhecimento, resolvemos assumir essa responsabilidade que deve ser de todos os envolvidos com a Educação. Assim, em agosto de 1997, iniciamos um trabalho de educação sobre a afetividade-sexualidade dos integrantes do GTPAÊ–Grupo de Teatro para Atores Especiais, nos laboratórios de teatro, em viagens de trabalho e em atividades de inclusão social.
Posteriormente, a experiência estendeu-se também aos pais/ cuidadores destes atores, em reuniões gerais ou particularizadas, e também junto à sociedade, nas apresentações teatrais, em participação de eventos científicos e em pronunciamentos na mídia.
Embora a religião, ao longo de muitos séculos, tenha exercido uma forte influência sobre a sexualidade humana, fazendo da mesma um objeto de preocupação moral ao ditar normas e controlar o seu cumprimento (FIGUEIRÓ, 1996), para embasar a nossa atuação construímos um conceito laico de afetividade-sexualidade como sendo um conjunto de sentimentos e comportamentos que dá sentido à vida, fortalece a autoestima, cujo compartilhamento é indispensável para o ajustamento emocional de qualquer um de nós, independente da configuração de nosso corpo ou funcionamento de nossa mente.
O trabalho junto aos pais/cuidadores, junto ao jovem e adulto com deficiência mental e junto à sociedade será aqui relatado separadamente, apenas para efeito didático; assim muitos dos aspectos trabalhados numa instância não são exclusivos da mesma, sendo as suas inserções determinadas pelos interesses, necessidades e particularidades dos participantes em cada contexto.
Lidando com a questão junto aos pais/cuidadores
Proceder à educação afetivo-sexual de um filho é uma situação muito particular, muito pessoal, na qual cada díade– pai e filho–deve encontrar a maneira mais eficaz de realizá-lo (FERREIRA, 2001). Para isso, apresentamos algumas ideias e sugestões que podem propiciar aos filhos com deficiência mental aprender a lidar com o próprio corpo de forma tranquila e descobrir possibilidades de afeto e prazer no relacionamento com outro.
Para iniciar, é necessário fazer uma distinção entre 1. Afetividade-sexualidade e 2. Casamento de pessoas com deficiência mental, pois cada um tem significado próprio e remete para diferentes possibilidades de encaminhamento. Não raramente, pais/cuidadores perguntam: “Nosso filho tem condições de se casar?”, e invariavelmente respondemos com outra pergunta: “Vocês querem saber se o seu filho pode se casar ou querem saber se ele tem condições de vivenciar um relacionamento afetivo-sexual?”.
Geralmente, esses interlocutores querem mesmo é um parecer a respeito da segunda possibilidade–vivência da afetividade-sexualidade entre as pessoas com deficiência mental.
Neste caso, com convicção temos respondido afirmativamente à questão, afinal, como diz Denari (1998, 2003), a vivência da sexualidade não deve ser entendida como uma concessão, mas como um direito inerente a todo o ser humano. Por isso, nosso trabalho é dedicado à informação, reflexão, discussão e avaliação de alguns aspectos, tais como: inerência desta característica hominal; exercício da afetividade-sexualidade como direito humano; normalidade de sua expressão em pessoas com deficiência mental; privacidade e responsabilidade nas suas manifestações; possibilidades de procriação, métodos contraceptivos, e outros particulares a cada caso.
Por outro lado, quando os pais/cuidadores querem saber da possibilidade de casamento entre pessoas com deficiência mental, temos levado em conta o que diz Moukarzel (2003).
Segundo ela, o casamento, como instituição consagrada na cultura cristã, habita o imaginário de qualquer pessoa, não sendo diferente para aquelas com deficiência que assimilam as regras e valores morais de seu contexto social; no entanto, além dos dois fatores de exclusão existentes–negação do prazer à pessoa com deficiência e resquícios teóricos sobre o caráter degenerativo da deficiência, um terceiro agrega-se para impedir seu casamento–o provimento financeiro para a manutenção da vida familiar. Nesta perspectiva, nosso trabalho tem se destinado a informar, refletir, discutir e avaliar aspectos, além dos acima citados, referentes à autonomia pessoal-social (4), administrativa (5) e financeira (6).
Enfim, se a indagação dos pais/cuidadores for sobre a possibilidade de casamento entre pessoas com deficiência mental, a resposta deve ser construída, caso a caso, pelos envolvidos direta e indiretamente na situação–os pretendentes e os consogros, respectivamente, afinal, trata-se de um casamento a seis. Neste processo, exaustivamente deve-se:
- Analisar o suporte financeiro para a manutenção do casal (auto sustento: proventos dos futuros esposo e esposa e heterosustento: contribuição dos pais do rapaz e da moça);
- Ponderar a viabilidade de procriação, ou não, do casal e
- Esclarecer e estabelecer as responsabilidades que deverão ser atribuídas a todos aqueles que farão parte do novo contexto familiar.
Após os pais/cuidadores terem esclarecidas as suas dúvidas sobre a possibilidade de vivência da afetividade- sexualidade e sobre um eventual casamento entre os filhos com deficiência mental, emerge o receio de que falar sobre a afetividade-sexualidade lhes despertará o interesse em vivenciar experiências neste âmbito. Pinel (1999) diz que há alguns deles que ainda consideram a educação sexual como uma ameaça à “inocência” desses filhos, pois poderia provocar condutas promíscuas por parte dos mesmos. Glat (1992) afirma que não há questão mais falsa, pois em nossos dias qualquer criança tem acesso a informações sobre o sexo pelos meios de comunicação, conversas com colegas ou ouvidas dos adultos que, desta forma, são deturpadas, fragmentadas ou mal interpretadas Infelizmente, ao assim pensarem, os pais/cuidadores não percebem que a maioria das condutas inadequadas de seus filhos com deficiência mental acontece devido à ignorância sobre a sexualidade e ao isolamento em relação aos pares do outro sexo. Wüsthof (1994) alerta para o fato de que as proibições, sonegação de informações e orientações não resolvem nada, pois os jovens vão continuar explorando o mundo à sua maneira, só que às escondidas e correndo mais riscos. Segundo Assumpção Jr.(1998), se considerarmos a pessoa com deficiência mental capaz de ser educada de maneira tal que possa, dentro de seus limites, participar de uma estrutura social, então, temos obrigatoriamente que considerar a sexualidade e, portanto, criar condições educacionais e sociais para que possa expressar, de maneira adequada, essa parcela de seu Ser.
Conforme expressa Moukarzel (2003), parece difícil às famílias compreender a sexualidade além da dimensão genital e procriativa; o medo da sua vivência prazerosa faz com que infantilizem os filhos com deficiência, acreditando que a pureza de seus sentimentos os impedirá de agir com malícia. Ainda, diz a autora, as atitudes repressivas são mais intensas sobre as manifestações sexuais das mulheres com deficiência mental, condenando-as a uma existência triste e solitária. Concernente a este tipo de constatação, diz França Ribeiro (2006):
Na passagem da infância para a adolescência tem-se observado muitos pais que, diante das incertezas quanto ao fato da filha tornar-se sexualmente atraente (despertando a atenção dos rapazes), continuam a infantilizá-la. É comum observarmos moças adolescentes tratadas pelos pais como lindinha, minha menina, conduzindo a baixas expectativas da possibilidade da moça ir organizando sua identidade adulta, o que poderá contribuir para uma inadequada imagem corporal e um rebaixado autoconceito. (p. 19)
Cremos já ter ficado explícito que nossa atuação não desvincula a afetividade de sexualidade, e para representar este binômio selecionamos o namoro conforme definido por Wüsthof (1994, p. 43): “Namorar significa explorar o mundo, o corpo e a alma a dois.”.
No entanto, apesar da poesia e singeleza que caracterizam este tipo de relacionamento afetivo-sexual humano, é frequente o temor e a angústia de pais/cuidadores por não saberem como lidar com o namoro dos filhos com deficiência mental, sendo este um outro fator que limita ainda mais a possibilidade de estas pessoas construírem a sua felicidade. Moukarzel (2003) diz que namorar é, talvez, a única oportunidade que essas pessoas têm de aproximação íntima e compartilhamento afetivo; namorar, amar e sentir-se amado são sensações e experiências desejadas por qualquer pessoa; a troca de beijos e carícias é uma linguagem pela qual se expressa a busca do prazer, que não necessariamente culmina numa relação sexual vaginal, e nem sempre é procriativa.
A ignorância a respeito da existência e possibilidade da afetividade-sexualidade de jovens e adultos com deficiência mental tem determinado no mínimo, três formas totalmente impróprias para o manejo da situação. Uma delas é a negação: é comum ouvir que os deficientes mentais “São verdadeiros Anjos!” ou que “Eles serão eternamente crianças!”. A outra é a omissão: geralmente camuflada por verbalizações do tipo “Ainda é muito cedo para você pensar em namorar!”. A terceira refere- se ao controle, expressada por afirmações de que “É preciso reprimir essas ‘vontades’ dos jovens e adultos com deficiência mental, pois eles não sabem o que fazem!”. Impedir o exercício da afetividade-sexualidade por meio de repressão comportamental, de atividades incompatíveis ou até mesmo de ingestão de medicamentos, é uma prática que em nada contribui para manifestação socialmente aceitável da mesma, mas que poderá levar à cristalização da ideia de que eles são também deficientes neste aspecto de sua existência.
CONTINUA…
1- Este texto contém partes da Conferência “Amor e prazer também na deficiência mental”, proferida no II Simpósio de Sexualidade e Educação Sexual Paraná–São Paulo–Santa Catarina, em 15 de setembro de 2006, Londrina.
2- Psicóloga Mestre em Educação Especial pela UFSCar. É docente na Universidade Estadual de Londrina, no Curso de Psicologia, na Especialização em Psicologia Aplicada à Educação e membro do PROENE-Programa de Acompanhamento a Estudantes com Necessidades Educacionais Especiais. Coordenadora do Projeto de Extensão: GTPAÊ-Grupo de Teatro para Atores Especiais. Publicações: artigos concernentes à deficiência mental, à arte-educação e à inclusão no ensino superior. Autora do livro Aprendendo sobre a deficiência mental: um programa para crianças (Memnon, 1998) e organizadora do livro Teatro e deficiência mental: a arte na superação de nossos limites (Memnon, 2002).
3- Projeto Síndrome de Down (1989–1994); Projeto Conscientização (1996- 1997) e Projeto GTPAE–Grupo de Teatro para Atores Especiais (1997-2008).
4- autonomia pessoal-social: comportamentos básicos de autocuidados e socialização que os pretendentes ao casamento devem ter, para não inviabilizar a tarefa daqueles-normalmente os consogros que, ao longo do tempo, serão os responsáveis pelo monitoramento da nova família constituída.
5- autonomia administrativa: de igual maneira, é preciso considerar o déficit cognitivo que tem a pessoa com deficiência mental, o que compromete sua capacidade de gerenciar os recursos econômicos para o sustento da família e para educação de filhos, entre outras atribuições inerentes à situação de casamento.
6- autonomia financeira: também é preciso considerar as reais e reduzidas oportunidades oferecidas ao deficiente mental no mercado competitivo de trabalho, de modo que possa regularmente ganhar o dinheiro para o seu sustento e da família que pretende constituir.
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Thais F Oliveira
Achei muito importante tudo o que a psicóloga falou, sendo que as coisas na prática são um pouco complicadas, permiti que minha filha de 14 anos, voltasse do colégio sozinha, pertinho de casa, por aconselhamento de terapeutas, para que tivesse mais autonomia, e aconteceu algo terrível em nossa família, minha filha tem deficiência intelectual, hoje me sinto culpada por não ter feito o que meu instinto de mãe mandava.
Vera Garcia
Thais,
Essas orientações são de grande contribuição, mas concordo com você no que diz respeito a seguir o instinto materno.