Três anos após dar à luz, mãe com síndrome de down revela detalhes de seu dia a dia

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Foto arquivo pessoal

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“Calma gente, não está doendo, está tudo bem”. Era dessa forma que Maria Gabriela Andrade Demate, portadora de síndrome de down, tentava acalmar os pais e os dois irmãos ao seguir para uma maternidade em Campinas, no interior de São Paulo, onde daria à luz sua primeira filha.

Com 27 anos, ela engravidou do marido, o estudante Fábio Marchete de Moraes, com quem já mantinha um relacionamento há 3 anos e meio.

Os dois se conheceram na APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), por volta dos 7 anos de idade, mas logo Fábio, que tem retardo intelectual devido a um acidente vascular pós-parto, saiu da escola. Anos depois, quando retornou, Gabriela já namorava outro rapaz que também tinha síndrome de down, porém ela se lembrou dos presentinhos que ganhava do colega de infância e ficou balançada. “Ele me dava caixa de bombom, correntinha, dava tudo”, relembra Gabriela.

Durante algum tempo, a estudante se viu em um triângulo amoroso, mas logo que se deu conta da situação a comerciante Laurinda Ferreira de Andrade, de 55 anos, disse que a filha precisava se decidir com quem realmente queria manter um relacionamento. ”Ela ficou levando o Erick e o Fábio no banho-maria, mas chegou uma hora que falei: você pode até namorar, mas só um, porque desse jeito você já está exagerando. Foi aí que ela optou pelo Fábio, com quem está até hoje”, revela a mãe da moça.

A decisão não foi muito difícil, já que a aluna cobiçada usou um critério muito simples que não deixou qualquer dúvida na hora da escolha. “O Fábio saía à noite para comer lanche, ia na praça, fazia tudo, e o outro não”, conta Gabriela.

Com o apoio dos pais, o casal reatou o romance e, passado algum tempo, não conseguia mais se desgrudar.

“Quando começaram a namorar os dois não queriam mais se separar, ficavam juntos o tempo todo. Com seis meses de namoro ninguém segurava mais. Foi ai que resolvemos colocar uma cama na minha casa e uma cama na casa da sogra dela e os dois passavam um tempo em cada lugar até que não se desgrudaram mesmo. Como o Fábio tem mais dificuldade de largar a mãe dele, os dois mudaram para lá”, diz Laurinda.

Como qualquer outro casal, Fábio e Gabriela mantinham relações sexuais frequentes, porém não imaginavam que poderiam gerar um filho. Na época em que descobriu a gravidez, a jovem já tinha passado por pelo menos três médicos que garantiram que ela não tinha chances de ter um bebê. Porém, um geneticista alertou que isso poderia ocorrer, sim, sem esperar que ela já estivesse grávida.

“Lembro que fiquei encantada com a ideia, mas a Gabriela foi categórica ao dizer que não queria ser mãe porque filho dava muito trabalho. Como ela tomava anticoncepcional e começou a sentir umas dores de estômago, a levei ao médico para colocar um método contraceptivo intra-pele e nesse ir e voltar ela já estava grávida”, afirma a comerciante.

A surpresa da gravidez

Laurinda, mãe de Gabriela, percebeu que a filha estava mais “cheinha”, mas nunca imaginou que ela pudesse estar esperando um filho. “Eu sempre chamava a atenção dela por estar comendo muito e achei estranho o tamanho da barriga, porém não liguei muito. Foi quando o Fábio contou para um amigo que a barriga dela estava dando socos. Ao levá-la ao médico descobrimos que a Gabriela estava de seis meses. A Valentina nasceu com oito meses e alguns dias, o que quer dizer que eu soube da gravidez e exatamente dois meses depois minha neta já tinha nascido”, recorda.

A maior preocupação dos familiares foi em relação ao fato da estudante não ter feito o pré-natal e não ter acompanhado a gestação. “Durante a gravidez ela fez natação, equitação, musculação e estava fazendo balé, então era um ritmo de exercício físico imenso”, afirma Laurinda.

Porém, enquanto a mãe se descabelava, Gabriela mantinha a calma e o otimismo. “Ela nunca teve medo de nada porque sempre foi muito conversado esse tipo de coisa em casa. Só ficou um pouco com receio da cesárea porque queria tentar o parto normal, mas expliquei que era muito mais difícil e ela aceitou numa boa”.

Laurinda acabou dando todo o apoio que ela mesma não teve quando a filha nasceu. Há 30 anos, não se tinha nenhuma informação sobre o que era a síndrome de down. “O meu sonho era ter uma menina, porque eu já tinha um menino de quatro anos, e você espera sair de um parto com um filho lindo, maravilhoso e perfeito, de preferência o mais lindo da maternidade. Foi um choque quando um dos médicos disse que ela iria andar, falar, teria problemas cardíacos e iria morrer”, relata.

A notícia caiu como uma bomba. Desorientada, a comerciante procurou um geneticista para saber detalhes da enfermidade e chegou a passar dias trancada dentro de casa, chorando, sem querer mostrar a filha para ninguém. “Um dia uma amiga minha chegou e falou: não tem o que fazer, é para sempre. Não é uma coisa que tenha cura, mas se você estiver mal e quiser ficar trancada dentro de casa será uma opção de vida sua. Agora, se você quiser sair com ela e enfrentar o povo, que com certeza vai ‘cair matando’, é outra opção sua. Nisso me deu um estalo, me questionei por quanto tempo ia ficar ali chorando e decidi encarar o mundo. Vesti minha filha com a melhor roupa, a embonequei mesmo, e fui para a rua”, lembra.

A chegada de Valentina

Laurinda lembra que durante a gravidez de Gabriela ficou bastante perdida por conta da rapidez em que os fatos aconteceram. ”Costumo dizer que fiquei cega, surda e muda neste período. No dia em que a bolsa estourou, eu estava na maior correria, com pedreiros em casa construindo o quarto que seria da Valentina, e não percebi que ela estava prestes a ter a criança. Por volta das 7h da manhã, a Gabriela me disse que tinha feito xixi na cama, mas só na hora do almoço é que eu fui descobrir que na verdade a bolsa tinha rompido, mesmo porque ainda não estava no tempo do parto. Foi uma loucura, fomos voando para Campinas e ela tranquilizando a gente. Eu quase morri”, diverte-se.

Valentina chegou ao mundo um mês antes do previsto sem herdar a síndrome de down da mãe e a deficiência intelectual do pai. “Minha neta é uma verdadeira benção, linda, maravilhosa, inteligente e meiga. É a consequência da vida que a Gabriela sempre levou. Eu fiz questão de que ela tivesse uma vida normal, que conseguisse o máximo que quisesse na vida e sempre procurei realizar todos os seus sonhos na medida do possível. As pessoas acham que os deficientes não têm sonhos, só precisam de cuidados, mas isso não é verdade. Eles têm muitos sonhos”, alerta.

Papeis invertidos

Embora não more com a filha, que hoje tem 3 anos, Gabriela orgulha-se ao falar de Valentina e lamenta quando sua mãe, que é quem cria a menina, precisa dar algumas broncas. “Ela passa mal sempre que vê a gente chamando a atenção da Valentina e diz que não gosta porque sente um aperto no peito. É o instinto materno mesmo”, afirma Laurinda.

Valentina foi registrada pelos pais biológicos após a avó enfrentar algumas dificuldades no Cartório de Registro Civil da cidade de Socorro, onde moram. “Eu não tinha dúvidas de que isso seria possível, só gostaria que tivesse sido com mais respeito”, conta ela que passou cerca de dois meses lutando para que o local aceitasse o pedido depois de alegarem que Fábio não conseguia declarar a paternidade, nem dizer seu endereço residencial.

No dia a dia, Gabriela costuma levar a filha à escola com a mãe e adora brincar com a menina. “Ela me chama de mãe, a gente pula na cama elástica, assiste televisão. Ela é bem boazinha comigo”, diz a jovem que também não poupa elogios à mãe. “Ela [Laurinda] me leva até café na cama e eu ajudo a arrumar a cozinha”, ressalta.

Segundo a avó, Valentina é bastante apegada à mãe. “Ela é completamente apaixonada pela Gabriela e a chama de minha mamãe gorducha (risos). Quando ela chega, a Valentina já fica cheia de manha, faz birra. Acabei meio que assumindo o papel de mãe e ela o de avó, que deixa fazer tudo”, confessa.

Ao ser questionada pelo eBand se gostaria de ter outro filho, Gabriela é categórica. “Não, eu operei, um já está bom”.

Enfim, casados

Um ano após o nascimento de Valentina, Gabriela e Fábio oficializaram a união com direito a uma festança que movimentou a pacata cidade de Socorro. “Fizemos uma cerimônia religiosa no melhor clube no dia 19 de março de 2009, quando minha neta completou 1 ano. A Gabriela casou de branco e a Valentina entrou de daminha”, conta a avó.

Gabriela também lembra a data com carinho. “Foi muita gente, estava tudo lotado, minhas tias, meus tios, meu pai”.

Durante a entrevista, ela estava passando alguns dias na casa da mãe, perto da filha e longe do marido. “Eu estou doentinha e a Valentina também. O Fábio está lá na nossa casa, cuidando, mas ele liga todo dia porque está com saudade”, diz envaidecida.

Fonte: http://www.band.com.br/ (06/05/11)

Foto arquivo pessoal

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Foto do arquivo Pessoal

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Veja:

19 Comentários

  1. jacira dos santos disse:

    Lindos eu também tenho uma filhia com sindrome down.
    bjus

  2. Maria Helena Rigel Eggert disse:

    Parabens aos pais de Valentina . Estou surpresa pela Gabriela ter tido uma gravidez tão normal e tranquila, é uma benção Deus cuidou delas…
    O que gostei muito mesmo é o fato dos pais de Gabriela terem cuidado tão bem dela, incentivado ela a praticar esporte, isto é muito bom, o esporte cura e liberta, proporciona saúde e felicidade.
    Se todas as crianças que nascem com a síndrome de down recebessem tanto cuidado, atenção, educação, prática de esporte, equitação e lazer como a Gabriela o mundo seria muito melhor. Portanto dou Parabéns aos pais da Gabriela e a todoas as pessoas que participam da vida do casal Gabriela e Fábio , e que a Valentina tambem tenha uma vida cheia de atividades e felicidades a todos ! Linnnnnnnnnnnnndooooooooooo……

  3. Célia Cristina Araújo disse:

    Maravilhoso saber que o amor transforma a vida das pessoas…. Uma família cheia de amor que se transformou em um exemplo para mim… Tive a felicidade de aprender lições de amor com pessoas maravilhosas, crianças com síndrome de down, recebi muito abraço, beijo e carinho, tudo que jamais esqueci…..

  4. Cecília Maria Nunes disse:

    Adorei a história da sua familia,e admiro pessoas como vcs,eu fiquei com uma deficiência na coluna,depois de um acidente de bicicleta,e hoje sei as dificuldades que nós deficientes temos para ter uma vida normal,tenho amigos deficientes tb,e estou emocionada com a história da sua filha,desejo que todos vcs,continue suas vidas com muito amor e carinho,e desejo tb muito sucesso,paz,harmonia para todos,que Deusabençoe vcs todos,um grande beijo.

  5. angelica disse:

    Olá bom dia!!lendo essa história fiquei imaginando como muitas vezes somos egoistas com nós mesmo,pois a história desses dois é uma lição de vida porque qndo temos um problema nos tornamos incapazes..sabe eu era voluntária em uma escola especial daq de perto de onde eu moro pra mim foi muito bom pq aprendi com eles como valorizar mais a vida! Parabéns a essa familia linda e maravilhosa que DEUS derrame muitas bençãos em tdos vcs!!!

  6. fabiana disse:

    li a matéria com lágrimas nos olhos….lindo demais.

    Deus é grandioso….a gente pede e Ele nos ampara.

  7. Ximena disse:

    Muito emocionada li……a maravilhosa historia da vida! Parabéns……

  8. Jaiara disse:

    Que lindo, vcs são maravilhosos..amo todos.

  9. Luciana Souza disse:

    Muito bom ter noticias desta família linda! Tenho um filho com deficiência intelectual.

  10. Gostei muito da história de vida deles,realmente faz com que a gente pense no futuro de nossos filhos ou parentes com down de maneira mais normal possível,
    Amei a História…desejo tudo de bom sempre….Deus abençoe!

  11. Lurdes Escobar disse:

    Emocionante…..uma história tão emocionante que chega a dar um nó na garganta…..parabéns “Gabriela,Fábio e Valentina” uma linda familia.

  12. Gui Cattoni disse:

    Que história linda! Que bom que para Deus, e por isso, para o amor não há barreiras!!!
    Desejo que essa família seja muito feliz!!!!

  13. Adelayde gil disse:

    Fiquei muito feliz por conhecer a história da Valentina! È um verdadeiro conto de NATAL. Desejo a ela e sua família Paz, saúde e prosperidade!!!

  14. Alba disse:

    Que história linda e emocionante mesmo, é bom ver finais felizes quando está incluido possibilidades de preconceitos seja qual for, e esse é um belo exemplo de que Deus existe e que pra tudo tem uma saída.felicidades ao casal e a linda gatinha!

  15. Izabel Araújo disse:

    Fantástico relato sobre este casal com deficiências diferentes, o seu caso de amor e um relacionamento que foi escolhido através de critério.Que família do BEM e que vovó compreensiva.VIVA,VIVA,VALENTINA!

  16. Salete disse:

    Que história mais linda!!!!! Me emocionei!! Nossa, desejo muita saúde, muita paz e muita felicidade a essas famílias! À família do Fábio, à da Laurinda e a essa nova família constituída pelo Fábio, Gabriela e Valentina!! Parabéns!!!

  17. Eu tinha visto sobre essa história na TV, mas tinha sido muito por cima. É uma história linda, um exemplo de amor acima de qualquer preconceito pra qualquer um.

  18. Historia linda, exemplo de vida, família linda, filha linda, avós perfeitos.
    Todos nós somos iguais, o que muda é a forma de ver a vida. Diferenças? Não há!
    E eu vejo uma familia abençoada.
    beijos no core.
    Simone

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