Escola especial para crianças com síndrome de Down corre o risco de fechar, no Rio de Janeiro

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Síndrome de DownA matéria abaixo aponta os obstáculos à proposta de inclusão. De acordo com a psicóloga  Izabella M. Sant’Ana:
“Há necessidade de que os agentes e gestores educacionais sejam consultados e participem ativamente das mudanças e tranformações ocorridas no âmbito escolar. Suas experiências e seus questionamentos são fontes de informações relevantes acerca da realidade escolar e precisam ser levados em consideração no momento em que os órgãos governamentais decidem os rumos da Educação. Além disso, permitem dizer que é necessária a redefinição dos modelos de formação dos professores, com vista a contribuir para uma prática profissional mais segura e condizente com as necessidades de cada educando. ”  (Nota do blog)

Por Martha Neiva Moreira

A Escola Colibri tem 36 anos e pais têm medo de matricular seus filhos em escolas regulares

Dalva Rodrigues está de mudança. Terá que sair do casarão da Rua Fonte da Saudade, na Lagoa, onde oferece atendimento especializado para 80 crianças, jovens e adultos com Síndrome de Down. Há 36 anos ela dirige a escola que fundou, a Colibri, e agora busca um novo endereço para se estabelecer porque o proprietário pediu o imóvel. Há tempos a instituição passa por dificuldades. A dívida de IPTU chega a R$ 120 mil, mas Dalva não desanima e os pais agradecem porque temem ter que matricular os filhos em uma escola regular. Mais do que o fim de um projeto de vida, que beneficiou inúmeras famílias, a ameaça de fechamento da Colibri traz à tona um tema que, no debate sobre Educação no país, acaba ficando à margem: o da inclusão de deficientes no sistema formal de ensino.

Desde 1996, quando foi sancionada a Lei de Diretrizes e Base da Educação (LDB), é dever do Estado oferecer “atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com necessidades especiais, preferencialmente na rede regular de ensino”. No entanto, na prática, o que ocorre é que os pais ainda ficam apreensivos em ver seus filhos em uma turma convencional. “Tenho muitos alunos cujos pais nunca tentaram colocá-los em uma escola regular” conta Dalva.

É o caso de Maria do Carmo Germano, mãe de Solange, que hoje tem 43 anos e frequenta a Colibri desde 1986. Ela disse que a filha jamais entrou numa escola tradicional e os conhecimentos que aprendeu, como escrever o nome por exemplo, foi ela ou as professoras da Colibri que ensinaram. “Tenho muitos alunos cujos pais nunca tentaram colocá-los em uma escola regular”

Ex-secretária municipal de Educação do Rio de Janeiro e consultora na área de ensino, Regina de Assis defende que crianças surdas, cegas e com Síndrome de Down frequentem a escola regular. Ela entende que não há razão para segregá-los, pois, embora possam ter algum comprometimento cognitivo ou de linguagem, têm condições afetivas para conviver socialmente.

Nas redes públicas de ensino, por exigência da LDB, é obrigatório que as escolas mantenham classes ou salas especiais para que alunos portadores de deficiência tenham atendimento especializado, além das aulas regulares caso necessário. Mesmo assim, segundo informações do site da Secretaria Municipal de Educação do Rio, há pouco mais de cinco mil alunos matriculados nas classes de Educação Especial na rede, menos de 1% do total de matrículas, hoje em 640 mil.

A quantidade relativamente pequena encontra justificativa no que hoje faz parte do discurso dos pais de crianças da Colibri. Eles temem não encontrar nas escolas convencionais profissionais preparados para lidar com as necessidades dos filhos. A tarefa exige especialização. O que, segundo Regina de Assis, ainda deixa a desejar tanto na rede pública quanto na particular: “Os professores não são bem preparados para trabalhar com essas crianças nos cursos de formação e ainda são poucos os que buscam especialização. Os sistemas de ensino deveriam capacitá-los, o que também ainda não acontece como deveria.”

Iara Ferreira do Santos, mãe de Tuany, 13 anos, também aluno da Colibri, levou durante alguns meses a filha a uma escola da rede municipal do Rio, a experiência não foi boa. “Esta escola tinha as tais salas especiais, mas mesmo assim minha filha não se adaptou. A professora não era preparada para lidar com ela, achava minha filha muito pirracenta e dizia isso para mim. Até que um dia, cheguei para pegá-la e quando olhei pelo vidro da sala vi que tinha outras crianças segurando a porta para ela não sair. Não tinha ninguém na sala. Esse tipo de situação pode até ser corriqueira, mas para famílias que criam crianças com algum tipo de problema gera estresse. A nossa relação com o professor e com a escola precisa ser de muita confiança.”

Daniela Nobre, mãe de Tomás, 9 anos, tem insistido. Ela matriculou o menino no início do ano na rede pública e diz que não está sendo fácil. O menino tem dificuldade para se adaptar e ela tem medo de preconceito das outras crianças com ele. Mas quer insistir, pois acha que a oportunidade é única para seu filho desenvolver alguma autonomia e para as outras crianças terem contanto com o diferente. “Acho que uma sociedade que prega a sustentabilidade deve tratar quem tem necessidades diferentes de forma diferenciada”

A apreensão de Daniela é para Marta Porto, secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, reflexo de uma sociedade que ainda não conseguiu consolidar um senso de justiça social: “Vivemos um momento de inclusão econômica e redução de indicadores de pobreza. Somos protagonistas mundiais no que se refere às preocupações ambientais. Mas ainda não conseguimos melhorar nossa consciência ética. Os cadeirantes têm sua mobilidade comprometida porque a nossa sociedade não cria condições para ele sobreviver com dignidade. Acho que uma sociedade que prega a sustentabilidade deve tratar quem tem necessidades diferentes de forma diferenciada.”

Fonte: http://oglobo.globo.com/
Referência: Rede Saci  (05/05/11)

Veja:
A inclusão da criança com Síndrome de Down na Rede Regular de Ensino: Desfios e Possibilidades

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2 Comentários

  1. SERGIO PRATA disse:

    LEMBRANDO O DIA 21/03, DIA INTERNACIONAL DA SÍNDROME DE DOWN

    “DOWN: A SÍNDROME DA ESSÊNCIA DA VIDA”

    “A poesia é tão sublime…é como o amor! Não tem hora, não tem lugar.”
    (ROMEU NETO: portador da síndrome de Down – Poeta e Escritor)

    Por: SÉRGIO PRATA

    Lembro-me de um tempo em que os diferentes eram considerados “a vergonha da família” e escondidos em quartos e porões ou encaminhados para instituições de tratamentos mentais, trancafiados “ad aeternun”, muitos sem ao menos nunca ter visto a luz do sol, alguns, somente à noite, eram libertos dos seus cárceres por algum tempo, quiçá como prova cabal do véu negro que cobria a ignorância dos seus responsáveis.

    Em família se sofria calado! As mocinhas jamais poderiam comentar tal abjeto para não ocorrer a fuga dos pretendentes, e assim seguia a vida, sorrateiramente sórdida, de discriminação vil como mecanismo de exclusão social, de uma sociedade injusta, inglória e ingrata, que sempre negou valores aos bons que não estivessem no topo ou em plena ascensão social, até chegar ao caos total da rejeição social pós traumática ou neurológica, onde os sãos rejeitavam seus deficientes e doentes com diabetes, Parkinson e etc…, pura ignorância.

    Eis que é chegado o tempo da razão, com os sãos reverenciando aleijados, cegos, surdos, os diabéticos, os portadores do mal de Parkinson e até mesmo doentes mentais por intermédio das artes manifestas. Diferenças à parte, a mídia em todos os seus formatos, eventualmente tem nos presenteado com ações de responsabilidade social, na integração socialização e/ou ressocialização dos deficientes e dos diferentes ao que se julga ser normal.

    O rompimento de tais barreiras, principalmente sob o véu imediatista das respostas em função das imagens televisivas da naturalidade de convívio dos personagens que invadem as nossas casas, foi e ainda é circunstancial para a integração e/ou reintegração dessa parcela da população, em especial com os portadores da síndrome de Down, uma convivência benéfica e salutar para todos nós, mas ainda há muita desinformação e equívocos.

    Contrariando em parte o poeta CAZUZA, em O TEMPO NÃO PARA, uma de suas obras irretocáveis, NÃO VEJO O FUTURO REPETIR O PASSADO. Vejo sim, o futuro seguir seu rumo em direção a verdade, ao justo e ao perfeito. Um futuro que começou lá atrás, de inicio acanhado e ousado, com os pais dos especiais assumindo as paternidades perante uma sociedade hipócrita e segregacional, que a todo o momento vilipendiava e que alguns imbecís ainda vilipendiam o sagrado templo da inocência.

    Um templo de sorriso frouxo que até mesmo na negativa se expõe, que pela inocência nega para si compreender o significado do não e do impossível, incorporado pelos seus responsáveis na ousada tarefa de impor a socialização dos seus a qualquer custo, sem se fazer valer da máxima da piedade do esmoler, porque o especial não é um miserável e não vive em estado de mendicância. O especial produz luz, amor e paz interior!

    Falei da luz? Eu vi a luz! Vi a luz no seu formato singular refletida na mão de um especial. Vi a luz dos anjos, na inocência eterna do ser, aquele que não guarda mágoas, rancores ou ódio em seu coração. Vi a luz espargir em cores vivas, nos traços disformes e transcendentais do lápis de cor tingindo o papel branco. Vi a luz falar de boca cheia. Vi a luz no beijo molhado em meu rosto, no abraço apertado, ao meu gosto, no grito alucinado que saiu do nada e por fim, eu vi, vi que a luz cingiu meu ser.

    E este de D’us era o plano… eu vi a luz, quando daquela boca inocente explodiram as palavras EU TE AMO!

  2. maju disse:

    Concordo que a mídia ajudou muito nas divulgações, em transformar a sociedade, em conscientizar, em mostrar com suas reportagens exemplos, etc…como a síndrome de down, e especial, tem seu potencial, e humano, e amoroso, e inteligente, tem que respeitar, amei a matéria, bjs.

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