Deficiência Física Superação

História de Superação: Depoimento de Jane Peralta

O exemplo de superação de hoje,  é de Jane Peralta, esposa do palestrante Flávio Peralta do site AMPUTADOS VENCEDORES.  A reprodução do texto segue o original e a imagem é do mesmo site.

“No dia 14.05.1981, em Umuarama-Paraná, parecia que seria mais um dia comum. Levantei-me, tomei meu café e me vesti para ir trabalhar. Trabalhava com meu pai em sua construtora. Já independente e bastante teimosa me deslocava com minha própria moto.

Num dia cinzento e nublado saí para mais um dia de trabalho. Para uma menina de treze anos que já tinha 1,74 de altura, eu já me considerava uma adulta em todas as minhas atitudes. Depois de um dia normal, era hora de voltar para casa. Quando pisei na calçada e subi na minha moto eu vi uma família, que morava no prédio ao lado, saindo no mesmo momento que eu. Os cumprimentei e ambos saímos pela mesma direção. Eu me dirigi por uma rua e eles foram por outra.

Uns 800 metros depois da minha saída, eu resolvi não parar em uma esquina preferencial, já perto da minha casa. Eu pensei: Sempre passo por aqui e nunca cruzei com um carro, desta vez eu vou passar direto.

Não vi nada e não me lembro da cena do acidente. Bati justamente naquele vizinho que eu havia cumprimentado minutos antes. O farol do carro se quebrou e estraçalhou minha perna direita, abaixo do joelho. Caí a alguns metros da moto e o sangue jorrava para todo lado (eu cortei a artéria). Uma amiga que vira meu acidente teve que tomar calmante para dormir à noite. Aquele senhor ficou tão desesperado que não conseguia sair do lugar. Um outro que passou no momento parou seu fusca, me colocou dentro do carro e me levou para um hospital.

O sangue jorrou pelo seu carro que o coitado ficou naquele estado. Quando cheguei ao hospital eu já estava em estado de choque. Perdi quase todo meu sangue e rapidamente fizeram uma transfusão de sangue para garantir minha vida. Naquela noite foi um desespero para meu pai e minha mãe. Ao passarem pelo local após o acidente eles acharam que eu havia morrido. O médico falou para eles rezarem muito por mim, pois, ele não garantia nem a minha vida. Ao passar o risco de morte ele avisou que eu poderia perder a perna. Ela estava um “bagaço”, toda retalhada.

No dia seguinte começa uma jornada longa de recuperação, muitos curativos e outras cirurgias. Como a extensão do corte era grande, tive que fazer uma nova cirurgia dois meses depois para realizar um enxerto de pele. Retirei a pele das nádegas e como foi difícil. Ficar deitada de barriga para cima, em cima de uma raspagem forçada nas nádegas foi um grande desafio. Depois que cessou a fase da dor, iniciou a fase da cicatrização que provocava uma coceira terrível. Parece que a dor é mais suportável do que uma coceira, que não se pode coçar. Depois de muita paciência e resistência tudo cicatrizou. As cicatrizes que ganhei nas nádegas valeram o resultado alcançado na perna. Mais uma vez o médico avisou que poderia não dar certo. Na hora da cirurgia eu escutava: “Essa lâmina não está cortando nada”.

Abençoado Dr. Carlos Alberto que agüentou minhas crises, meus choros e meu mau humor.

Após alguns meses eu caminhava e havia ganhado um pé caído, 83 pontos na perna e uma vida a ser vivida. Só me restava usar tênis e esperar uma adolescência cheia de desafios.

Em outubro de 1981 começamos a procurar outras possibilidades e encontramos um neurocirurgião que garantiu que não havia mais como meu cérebro passar nenhuma mensagem para o meu pé. Apresentou então uma goteira que poderia deixar meu pé fixado a 90º. Indicou-me a AACD em São Paulo e em fevereiro de 1982 lá estávamos eu e meu pai transitando nas ruas dessa cidade. Lembro-me que a primeira vez que usei essa goteira eu atravessei a rua em direção à antiga rodoviária de São Paulo numa grande alegria. Como uma coisa tão pequena pode fazer tanta diferença em nossa vida. Ali eu percebi que eu poderia viver muitas coisas boas na minha vida. Aliás, eu sempre tive uma visão positiva de tudo isso, não iria me deixar abalar com um pé caído. Afinal sobrou a perna.

Em 1985 eu fiz minha última cirurgia. Como meu pé estava torto eu puxei alguns nervinhos para deixá-lo mais reto. Abençoado Dr. Hilário Maldonado de Marília-São Paulo.

Às vezes me perguntam o que tenho de deficiente. Até eu mesma demorei a entender que era uma pessoa portadora de deficiência, já que me faltava uma parte de meu corpo. Embora tenha me acidentado de moto em 1981 só fui usar o caixa especial em bancos financeiros para deficientes em 1993.

Entrei em minha adolescência usando somente um tipo de calçado: tênis. Imaginem uma mocinha usando qualquer tipo de roupa sempre com um tênis no pé. Mesmo com essa limitação sempre saí com meus amigos, namorei , entrei em uma faculdade, encontrei vários empregos, me casei e me tornei mãe. Portanto, a limitação, muitas vezes, está em nossa cabeça e em nosso coração.
Hoje, meu marido é uma pessoa fantástica e aprendemos juntos a cada dia de nossas vidas. Ele é um amputado dos braços. Flávio Peralta do site www.amputadosvencedores.com.br

Agradeço a todos aqueles que me acompanharam nessa minha jornada perigosa. Mais especialmente aos meus pais e irmãos que não me deixaram perder o amor pela vida.

Agradeço também ao meu marido, que depois de anos me fez descobrir o que era o amor”.

Fonte: http://www.amputadosvencedores.com.br/

Gostaria de agradecer ao Flávio pela gentileza em  ceder esse depoimento ao blog Deficiente Ciente e  também dar os parabéns a Jane, que assim como seu marido, é um exemplo de superação!
Flávio e Jane, muito sucesso e muitas felicidades! (Comentário de Vera – Deficiente Ciente)

Vejam também nesse blog:
Flávio Peralta – Exemplo de Superação
Flávio Peralta e sua Família na TV Record – Programa do Gugu

Sobre o Autor

Vera Garcia

Paulista, pedagoga e blogueira. Amputada do membro superior direito devido a um acidente na infância.

9 Comentários

Deixe um Comentário